Segunda, Outubro 23, 2017

O mundo de Sofia

Para quem leu o livro O mundo de Sofia, do escritor norueguês Jostein Gaarder, e também assistiu ao filme “Sofies Verden”, do diretor Erik Gustavson, ler esse artigo será aceitar uma viagem pelos pontos principais da história e o desafio de analisar elementos interessantes dessa trama, intimamente ligados à maneira como Sofia desenvolveu seu aprendizado com tanto gosto, curiosidade e como se envolveu de fato na aventura... na aventura de aprender. Não seria melhor se todos os dias, na escola, pudéssemos viver aventuras e nos sentir realmente parte da história que estamos aprendendo? Ou se pudéssemos entender os questionamentos dos grandes pensadores, matemáticos ou artistas como se fossem nossas próprias dúvidas e anseios?


Para quem leu o livro “O mundo de Sofia”, do escritor norueguês Jostein Gaarder, e também assistiu ao filme “Sofies Verden”, do diretor Erik Gustavson, ler esse artigo será aceitar uma viagem pelos pontos principais da história e o desafio de analisar elementos interessantes dessa trama, intimamente ligados à maneira como Sofia desenvolveu seu aprendizado com tanto gosto, curiosidade e como se envolveu de fato na aventura... na aventura de aprender. Não seria melhor se todos os dias, na escola, pudéssemos viver aventuras e nos sentir realmente parte da história que estamos aprendendo? Ou se pudéssemos entender os questionamentos dos grandes pensadores, matemáticos ou artistas como se fossem nossas próprias dúvidas e anseios?

Afinal, isso não é verdade? Tudo o que aprendemos na escola é sobre a nossa existência e descobertas das quais nos beneficiamos, no entanto tudo é posto sob um véu que não nos permite enxergar com tanta clareza. A lousa torna-se um quadro preso à parede e tão distante. O livro aproxima esses grandes questionamentos até a vida simples de uma adolescente prestes a completar quinze anos chamada Sofia. De repente, ela começa a receber pelo correio cartas anônimas com perguntas que a fazem refletir... “Quem é você?”, “De onde vem o mundo?”... O seu amigo secreto resolve se apresentar, é Alberto Knox, personagem esse que irá iniciar uma grande aventura com Sofia ensinando-lhe Filosofia, História e Arte e como usar a própria imaginação. As pessoas às vezes pensam que não possuem tanta imaginação, mas é só porque não fazem ideia do que podem fazer com ela. A figura do “professor” Alberto Knox é muito forte e surpreendente, ele instiga Sofia e a conduz pelo fio da história dos grandes questionamentos do mundo.

Sofia se surpreende diversas vezes sabendo mais do que o professor de sua escola, um personagem que retrata a imagem de muitos professores antiquados, que não gostam de interrupções, de perguntas, e de alunos que apresentem mais conhecimento do que ele próprio. Em suma, um professor que prefere ser como uma sombra na caverna (leia aqui sobre o Mito da Caverna, de Platão), mantendo seus alunos olhando para o que ele determina, não permitindo uma exploração do lado de fora, à luz da observação e da reflexão. Alunos que não conseguem interligar suas experiências individuais de vida a todo o conteúdo que aprendem na escola. Ensaiam apenas a reflexão que os leva até a porta da caverna, mas nunca fora dela.

Alberto começa a jornada ensinando à Sofia sobre quem foi o filósofo Sócrates e como ele foi punido por assumir suas convicções que defendiam que as pessoas deviam aprender a pensar por si mesmas. A cicuta calara o corruptor da juventude ateniense. Muitos não queriam que as coisas mudassem. Platão, seu discípulo, percebe que todos nós na verdade somos todos prisioneiros em uma caverna, observando as sombras à luz de uma fogueira e imaginando que o mundo ali estaria resumido. E entre o mundo dos sentidos e o mundo das ideias vive o homem, em busca do verdadeiro conhecimento acerca de tudo.

Diógenes, um das maiores figuras representativas dos “Cínicos”, pregava que o homem precisava apenas dele mesmo e da prática ao

Livro O mundo de Sofia, da Cia. das Letrasdesapego das coisas materiais, inquirindo sobre valores e teorias sociais, os quais na época eram vistas como parte de uma sociedade ateniense corrupta. Entende-se, hoje, por cinismo o descaramento de dizer algo e fazer diferente. De fingir não perceber alguma coisa óbvia conforme suas próprias conveniências. Poderíamos aliar o cinismo ao comodismo e perceber que essa é uma das causas do imobilismo de nossa sociedade em alguns aspectos, como por exemplo, a educação.

Vamos pular para a idade média e conhecer uma personagem de quem não se fala muito, Hildegard Von Bingen (1098 a 1179), uma das primeiras mulheres da história a se interessarem por Filosofia. Crescida em um monastério, Hildegard dizia ouvir a voz de Deus e logo passou a ser considerada uma das escolhidas por Ele, era consultada por papas e imperadores. Compositora de música gregoriana, ela acreditava que a música e a arte eram expressões da natureza divina no homem. Posteriormente Tomás de Aquino, padre, teólogo e filósofo, acreditava que Deus se manifestava por intermédio da Bíblia e da razão. Pensemos na palavra “divino”. Na Idade Média a igreja era o centro de poder e era quem ditava todas as regras sociais. Divino também quer dizer excelente, perfeito, magnífico. Então deixando de lado o elemento religioso característico da era medieval, pensemos em como a natureza do homem pode expressar-se de maneira magnífica... Mais uma vez o homem aparece ansioso por expressar-se com todas as suas possibilidades, e isso não é possível dentro de uma caverna, certo? Voltemos à história de Sofia...

Ao final da Idade Média iniciou-se a Idade Moderna e o Renascimento, um período de retorno aos ideais gregos, da antiguidade clássica, uma época de grandes explorações a novos continentes e o surgimento do ideal humanista. O homem agora possuía tecnologia suficiente para explorar os mares e para estabelecer contato com outros continentes. Infelizmente a influência da Igreja, ainda forte, atrasou a aceitação de ideias e avanços científicos por cerca de 300 anos. Nessa época viveram grandes gênios como Nicolau Copérnico, Leonardo Da Vinci e Michelangelo. O monopólio cultural da igreja é quebrado pela invenção da prensa de tipos móveis, por Gutenberg. Agora os livros eram impressos e não mais copiados à mão.

“O conhecimento é poder”. (Francis Bacon)

Nesse momento da história, Sofia e Alberto se dão conta de que são personagens de uma ficção escrita por um major. Essa história é um presente de aniversário a sua filha Hilde, a personagem Sofia foi inspirada nela.  No entanto, Sofia aprende que o filósofo e matemático Descartes disse que se pensamos, então existimos: Cogito, ergo sum.

Então Sofia e Alberto existiam? E como escapar de um destino já determinado por um autor desconhecido?

“O mundo é como o percebemos”. (Berkeley)

Sofia tem uma ideia. “Podemos enganar o major, diz a Alberto”. Podem distrair o major chamando sua atenção para outro personagem, enquanto escapam. Mesmo sem ter a certeza se existem ou não, eles arriscam. Por intuição talvez. Talvez por perceberem que “o tempo voa” (tempus fugit) e por aprenderem com Berkeley que o espírito é superior à matéria. E nós? Somos personagens? Agimos como tal? Será que pensamos ser mais seguro quando outra pessoa escreve nossa história, determina nossos passos e nos impede de explorar mais profundamente o mundo que nos rodeia? A Filosofia nos ensina que questionar é melhor do que ter respostas. Uma resposta é o ponto de partida para uma nova pergunta.

Quando foi que perdemos nossa capacidade de continuar questionando?

“Estamos certos apenas de nossas percepções”. (Immanuel Kant)

Se pensamos e então existimos, se o que pensa é superior à matéria, se nossas percepções nos fazem  entender o mundo, porque negamos tantas vezes a nossa percepção de que algo está errado e não funciona. O professor na escola onde Sofia estudava não gostava de perguntas, ele desiste e se demite do emprego. Quando a “sabedoria” avança, muitos ficam para trás e desistem.

Não sejamos órfãos das grandes mudanças. Vamos resgatar a euforia e o interesse pelo saber que Alberto conseguiu provocar em Sofia.

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